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24
ago

Construindo movimentos, não organizações

Por: Mariel Ramos

*Por Hildy Gottlieb

Criar um mundo humano e saudável requer mais que novos desenhos organizacionais. É preciso que a natureza das organizações seja completamente repensada.

Criar movimentos

Em seu livro Blessed Unrest (Abençoada Inquietação), lançado em 2007, Paul Hawken descreveu um crescente movimento global para criar um mundo saudável e humano – um trabalho que não tem sido liderado por uma única marca ou instituição, mas sim por milhões de indivíduos e grupos por todo o mundo, que não estão necessariamente associados uns aos outros.

Desde então, o campo da mudança social tem crescido rapidamente. Temos testemunhado a proliferação de organizações sem fins lucrativos tradicionais (ou organizações voltadas ao bem comum, que é como preferimos chamá-las), as empresas sociais têm se tornado tão parte da corrente dominante que são estudadas em muitas das principais universidades. Temos visto também uma mudança marcante no mundo dos negócios tradicionais – que passou de muitos casos de puro greenwashing (ou lavagem verde) para o surgimento de negócios com pensamento genuinamente voltado ao social.

E ainda, continuamos a testemunhar guerras, pobreza, atos individuais de violência, massiva injustiça social e uma velocidade recorde de degradação ambiental.

Ao analisar os eventos do último século, entretanto, observa-se que o mundo passou de fato por mudanças sociais radicais. E esses esforços não foram liderados por organizações individualmente, mas por movimentos.

O que pode acontecer, portanto, se organizações e negócios dotados de uma mentalidade voltada ao social ajam mais como movimentos do que como organizações? E como que isso pode parecer, na prática? Para responder a essas questões, considere como poderíamos redefinir os seguintes três fatores: sucesso, liderança e meios.

Definindo Sucesso
  • Em um movimento, a missão define a o objetivo principal que o grupo pretende alcançar. Quando um movimento alcança o sucesso – “Missão cumprida!”- todo mundo vai embora. Em organizações, por sua vez, a missão define “o que fazemos”. Sucesso em uma organização significa que todo mundo vai ter que ficar por ali mesmo.
  • Os movimentos definem o que é sucesso de uma forma mais global. Se um movimento obteve sucesso, as coisas mudam para todo mundo. As organizações, por sua vez, frequentemente definem internamente o que é sucesso, a partir do que a organização alcança para si mesma.
  • Os movimentos buscam mudanças radicais. As organizações estão frequentemente satisfeitas com melhorias incrementais, compreendendo corretamente que uma instituição não pode atingir mudança em larga escala.
  • Em movimentos, a prestação de contas é para uma causa que é maior que qualquer um dos indivíduos. Quando é o caso de tomar decisões difíceis, a causa é a prioridade principal. Nas organizações, a prestação de contas é primeiramente para a própria organização; quando as lideranças devem tomar decisões difíceis, sua prioridade principal é a sustentabilidade da organização.
A palavra “movimento” significa “criar ação”, ir de um lugar para outro.

Manter um movimento é sustentar ação. De acordo com o dicionário Merriam-Webster, a palavra “organização” significa “o ato ou processo de colocar diferentes partes de algo em uma certa ordem, de forma que elas possam ser encontradas ou usadas facilmente”. Manter uma organização quer dizer sustentar uma ordem.

Definindo Liderança
  • Os movimentos começam com valores. Em movimentos de sucesso, decisões e ações estão alinhadas com esses valores. As organizações começam com ações, reforçadas por axiomas como “competências essenciais” e “falhe rapidamente”. Valores são raramente usados como um parâmetro consistente para determinar quais ações devem ser realizadas.
  • Liderar um movimento é um papel ativo – envolve liderar atividades de fato, na maioria das vezes, sem carregar um título oficial. Em contraposição, liderar uma organização é um papel formal – como diretor executivo. Os líderes com título, em praticamente todas as organizações maiores que uma minúscula startup, não são aqueles que lideram as atividades de fato.
  • Em um movimento, a liderança emerge de dentro. Qualquer um pode se unir, simplesmente agindo pela causa. Uma vez “dentro”, se tornar uma liderança é algo autodeterminado por cada indivíduo que decide agir e contribuir. As organizações frequentemente buscam por líderes de fora. As pessoas podem se juntar a uma organização somente em papeis formais (conselho, equipe, voluntário, estagiário). Os indivíduos não controlam se estão em ascensão, já que são aqueles que possuem a autoridade formal para a tomada de decisão que vão fazer esse julgamento.
  • A liderança de um movimento é distribuída e ágil, na medida em que indivíduos se tornam mais profundamente envolvidos e trazem outros para a causa. A liderança em uma organização é estruturada e mais frequentemente hierárquica, de acordo com um organograma fixo. Pessoas de fora se envolvem mais comumente aportando recursos financeiros – como os doadores em uma organização sem fins lucrativos, ou como consumidor ou investidor em um negócio.
  • A governança em movimentos diz respeito a valores, estratégias, e ação direta. A governança em organizações trata de conformidade com as normas, supervisão e gerenciamento de risco. Estratégia é quase sempre desenvolvida por outros na organização e então são aprovadas por aqueles “responsáveis”. Valores não entram normalmente em conversas sobre governança.
  • Por fim, o movimento é o líder – pessoas trabalhando por um movimento são leais a outros indivíduos dentro do movimento e a uma causa maior que aqueles indivíduos. Em organizações, a liderança cultiva a lealdade para com a organização.
Definindo Meios
  • Em um movimento, a forma segue a função. Como a funcionalidade demanda mudança, os movimentos dão valor a formas que são ágeis e efetivas. Em organizações, a função é guiada pela forma, começando com um ato inicial bem tradicional da maioria das organizações: preencher o estatuto social, as exigências legais e outras declarações sobre a forma pela qual a instituição irá enquadrar suas funções. A partir de então, as organizações dão valor a estabilidade e a eficiência: “Essa é a forma como fazemos as coisas”.
  • Os movimentos são apoiados de dentro para fora – primeiro por aqueles mais envolvidos e mais diretamente afetados pela causa, e então em círculos concêntricos que se movem em expansão.
  • Os movimentos definem “recursos” como as coisas realmente necessárias (trabalho, materiais), as quais são abundantes mesmo em comunidades que parecem ter bem pouco. As organizações, por sua vez, são em princípio apoiadas de fora para dentro – por consumidores, doadores, financiadores, investidores ou patrocinadores. Ao definir “recursos” como dinheiro, as organizações voltadas ao bem comum, particularmente, não assumem que os beneficiários de seus serviços são contribuintes principais para o sucesso do grupo.
  • Os movimentos tendem a adotar estruturas e sistemas que espelham como as sociedades progridem na direção em que as pessoas vivem bem juntas. As organizações tendem a adotar sistemas que espelham como os negócios e nações mantém a soberania uns sobre os outros.

O campo da mudança social está continuamente testando novas formas organizacionais para avançar no movimento que Paul Hawken descreveu. Quanto mais intencionalmente as organizações estruturam seus objetivos, liderança e meios para se tornarem mais parecidas com movimentos, mais provavelmente esses esforços criarão um mundo mais saudável e mais humano.

Esse artigo foi traduzido e publicado com a permissão da Stanford Social Innovation Review.

Leia esse artigo no idioma original em inglês no link.

Saiba mais sobre a Stanford Social Innovation Review em www.ssireview.org

GottliebHildy Gottlieb (@HildyGottlieb) é cientista social e formula questões poderosas. É autora, palestrante do TEDx e empreendedora social em série, tendo co-fundado e assumido o papel de “gerente de expansão de fronteiras” na “Creating the Future”, um laboratório vivo para trazer o que há de melhor das pessoas por meio de questões que vivemos nos perguntando em nosso cotidiano.


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