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23
maio

A face mutante da colaboração

Por: Mariel Ramos

*Por Jeffrey R. Henig, David M. Huston e Melissa Lyon

Nova pesquisa ajuda a dar contexto histórico ao impacto coletivo e abre perspectivas em relação ao desafio da sustentabilidade

Há 5 anos, um artigo de John Kania e Mark Kramer da FSG gerou uma onda de interesse sobre ‘impacto coletivo’ nos EUA. Impacto coletivo é um novo modelo de colaboração entre empresas, governos e organizações sem fins lucrativos que: enfatiza uma agenda comum; compartilha sistemas de avaliação; apresenta apoio mútuo entre os atores em suas atividades; demonstra comunicação contínua; e conta com a presença de organizações de suporte. Os autores apresentam a ideia de impacto coletivo como uma mudança de paradigma – diferente dos usuais esforços descoordenados e subutilizados para gerar mudança social, buscando empregar os recursos existentes de forma cooperativa, integrada e efetiva. Atualmente, uma simples busca no Google resulta em 416 mil menções para “collective impact” (impacto coletivo), e o termo aparece frequentemente nas conversas de líderes de fundações e organizações sem fins lucrativos. É importante perceber, no entanto, que a ideia de impacto coletivo – mesmo a presente nas iniciativas relativamente novas que serviram de base para o modelo de Kania e Kramer – não vieram do nada.

No Teachers College da Columbia University, estamos na metade de um projeto de pesquisa financiado pela The Wallace Foundation, para investigar impacto coletivo e colaborações multissetoriais para educação de forma geral. Lançamos uma extensa revisão de literatura e uma busca em websites de todo o país com 182 colaborações multissetoriais. Além disso, produzimos 3 estudos de caso extensivos (em Buffalo, Nova Iorque; Milwaukee, Wisconsin; e Portland, Oregon) e outros 5 estudos de caso mais resumidos estão a caminho.

Uma longa tradição de colaboração

A pesquisa sugere que há uma longa tradição de colaboração multissetorial – particularmente em educação – que antecede a emergência de impacto coletivo, e de onde esse novo modelo pode retirar importantes lições sobre transitar pela política local, construir coalizões diversas e manter o entusiasmo e o financiamento. Elaborar lições específicas demandará mais trabalho qualitativo como os estudos de caso que estamos conduzindo agora, mas já podemos observar a forma geral dos atuais esforços de colaboração, incluindo alguns que começaram há mais tempo (até há 4 décadas atrás).

Na busca feita em websites encontramos informações disponíveis ao público sobre programas que identificamos a partir de um conjunto de critérios: tinham que ser baseados em território e focado em educação; incluir a participação nos níveis mais altos de liderança em pelo menos dois setores (como educação e governo); e ter servidores do sistema escolar em papéis de relevância.

Uma característica que monitoramos foi a data de início de cada uma das colaborações, baseado no ano em que recebeu o nome adotado atualmente. Descobrimos que bem mais da metade das colaborações que encontramos foram lançadas antes de 2011, e quase 20% delas foram lançadas antes de 2000. Um aspecto curioso do desenvolvimento histórico das colaborações locais é como alguns exemplos contemporâneos têm evoluído em resposta às mudanças nas necessidades da comunidade, nas políticas e tecnologia, demonstrando evidências de que a ideia geral de colaboração é flexível e sustentável.

O Los Angeles Promise Neighborhood – que tem origem no Youth Policy Institute (YPI), uma organização sem fins lucrativos fundada em 1983 – é um exemplo de como esforços de longo prazo evoluem. YPI inicialmente focou em planejamento nacional e consultoria em desenvolvimento comunitário, mas na medida em que a política nacional e as oportunidades de financiamento mudaram, seu foco também mudou. No final da década de 90, YPI tinha desenvolvido uma estratégia deliberada de combinar diversas fontes de recursos para criar iniciativas baseadas em território, oferecendo um conjunto de recursos na área de educação, treinamento e tecnologia, em parceria com famílias e outras organizações públicas e privadas. De 1995 até 2000, YPI estabeleceu parceria nacional com 13 programas Hope VI nos EUA, uma iniciativa do Departamento de Moradia e Desenvolvimento Urbano voltado para projetos habitacionais com necessidade de revitalização. Em 2010, o YPI fez uma solicitação e foi agraciado com 1 das 21 doações para planejamento oferecidas pelo US Department of Education Promise Neighborhood .

Esforços de “Rebranding

É importante perceber que muitas iniciativas mais antigas passaram por um processo de ‘rebranding’, passando a denominar-se como ‘impacto coletivo’. De fato, mais de 1 em cada 4 colaborações estabelecidas antes da publicação do artigo de Kania e Kramer em 2011 agora usa o termo “impacto coletivo” em alguma parte de seus websites. (Respectivamente, a proporção é de aproximadamente 2/3 nos casos que começaram depois de 2011). Uma possível razão para isso é que as colaborações estejam capitalizando ao usar o termo, ganhando acesso aos recursos financeiros, a reputação e a publicidade que circulam no universo do impacto coletivo.

Outra razão é que as colaborações multissetoriais observam algo de genuinamente novo no atual modelo de impacto coletivo e procuram conectar-se ao modelo para acessar redes de informação nacionais ligadas a ele. Mais da metade das colaborações iniciadas depois de 2011, e mais de 1/3 daquelas iniciadas antes de 2011 estão afiliadas a redes nacionais como a “Strive Toghether”, “Say Yes to Education”, e “Promise Neghborhoods”. A popularidade dessas redes sugere que colaborações locais esperam que as redes adicionem valor em facilitar a aprendizagem entre os programas, compartilhar recursos, proporcionar visibilidade nacional e influência política. Entretanto, não conseguimos ainda compreender como esses benefícios são priorizados pelas colaborações multissetoriais, ou mesmo saber se as redes estão de fato correspondendo às suas expectativas.

Enquanto a existência de colaborações mais antigas parece encorajar para a questão da sustentabilidade, parece não ser tão claro o que a longevidade dessas colaborações sugere. Eles ainda existem porque não resolveram o problema que se propõem a atacar? Ou seu sucesso em reduzir ou eliminar problemas obteve a legitimidade e o apoio que precisava para continuar o trabalho?

É também importante considerar o que esses números não nos falam. Por exemplo, nossa pesquisa não inclui iniciativas que foram lançadas mas falharam em ganhar tração, perderam financiamento, esgotaram líderes ou saíram de cena antes que pudéssemos coletar seus dados. Se existiram muitas dessas, acabam servindo como lembretes para aqueles que estão atualmente empenhando esforços, indicando que não se deve contar com o entusiasmo inicial para levar esses esforços à cabo. A pesquisa também não nos conta porque alguns dos esforços acabaram adaptando-se, enquanto outros não.

Um novo senso de urgência?

Mudanças em políticas e nos ambientes políticos e econômicos podem estar criando um maior senso de urgência em torno de questões sociais, motivando mais grupos locais a trabalhar juntos. Por exemplo, a popularidade do movimento de famílias optando por não realizar os testes de avaliação escolar padrão, e as mudanças no Congresso Americano aprovadas em dezembro quando foi novamente autorizado o Elementary and Secondary Education Act (uma legislação para o equivalente ao ensino básico e médio nos EUA, que regula alguns dos aspectos mais diretivos da política federal estabelecida na administração Obama-Duncan), sugerem uma crescente desilusão com as iniciativas com características top-down e centradas na escola que caracterizaram a reforma da escola desde 2000. Reconhecer que não podem contar nem com as políticas estaduais, nem com a política nacional decidida em Washington (DC) para oferecer um modelo de sucesso, pode ser um passo para encorajar atores locais a colocar menos esforços na competição entre si por apoio externo, e mais em canalizar suas energias para construir uma base comum de ação.

Um aspecto das novas colaborações que é potencialmente promissor é que os servidores municipais e do distrito escolar estão mais fortemente representados em seus conselhos de governança. Cerca de 29% das colaborações multissetoriais nessa nova onda tem um prefeito em seus conselhos, e aproximadamente 2/3 tem um superintendente. Das colaborações iniciadas antes de 2011, quase uma a cada quatro tem um prefeito, e pouco menos da metade delas tem um superintendente. Esse desenvolvimento pode ajudar a dar bases para uma reforma mais efetiva e sustentável.

Nossa pesquisa oferece boas pistas em relação à forma das colaborações multissetoriais para educação nos dias atuais, e nossa busca em websites aporta abrangência ao trabalho. Os estudos de caso vão aprofundar nos mecanismos de influência e sustentabilidade, na natureza dos processos de tomada de decisão, perspectivas dos membros da comunidade e parceiros de colaboração, bem como nos obstáculos emergentes que estabelecem os limites dessas iniciativas. Apesar do intenso interesse local que as colaborações multissetoriais têm gerado em algumas cidades e entre investidores sociais privados, elas ainda não estabeleceram fortes alianças entre políticos nos estados e no país como um todo, e ainda não inspiraram a extensiva pesquisa que é necessária para estabelecer sua importância. Esperamos que nossos esforços possam servir como um catalizador para isso.  

 

Leia esse artigo no idioma original (inglês) no Ssir.org

 

Jeffrey R. Henig

Jeffrey R. Henig é professor de Ciência Política e Educação no Teachers College, da Columbia University, onde também atua como chefe do Departamento de análise de educação política e social. Escreveu ou editou 11 livros, incluindo “The Color of School Reform: Race, Politics and the Challenge of Urban Education” e “The End of Exceptionalism In American Education: The Changing Politics of School Reform”.

 

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David M. Houston é candidato ao Ph.D. em Políticas e Educação no Teachers College, da Columbia University. Seus interesses de pesquisa incluem educação, política, opinião pública e desigualdade política.

 

 

Melissa Lyon

 

Melissa Lyon é estudante do Ph.D. em Políticas e Educação no Teachers College, da Columbia University. Dentre seus interesses de pesquisa estão educação urbana, políticas com relação a raça, classe e bairros.

 


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