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21
jun

Como trabalharemos no Mundo Pós-Industrializado?

Por: Mariel Ramos

*Por Tomás de Lara

A maneira de entendermos trabalho está sendo radicalmente transformada a uma velocidade cada vez maior. O que gera grandes oportunidades, mas também grandes riscos: o lado bom é que em breve robôs farão nosso trabalho rotineiro, o lado ruim é que a perda desses postos de trabalho pode gerar um aumento da tensão social, especialmente nos países em desenvolvimento. O que acontecerá com o trabalho após a quarta revolução industrial? Este foi o tema principal explorado no OuiShare Fest 2016.

A Quarta Revolução Industrial, como descrito no livro recente, The Fouth Industrial Revolution por Prof. Klaus Schwab (presidente do World Economic Forum), “é caracterizado por uma fusão de tecnologias que está dissolvendo a divisão entre as esferas física, digital e biológica”. Inteligência artificial, Nanotecnologias, Biotecnologias, 3d Printing, Robôs, e a própria Internet são os protagonistas deste movimento que está fazendo uma revolução em quase todas as posições de trabalho.

De acordo com um estudo de Oxford University intitulado “The future of employment” (O futuro do trabalho, em tradução livre), aproximadamente 47% do total de trabalhos nos EUA está em risco. “…existe uma tendência de polarização do mercado de trabalho, com um crescimento no número de cargos bem remunerados para funções intelectuais e em cargos de baixa remuneração para ocupações manuais, acompanhado de uma diminuição de cargos de média remuneração para trabalhos operacionais”.

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DESIGUALDADE: APENAS A PONTA DO ICEBERG

Como os economistas Erik Brynjolfsson e Andrew McAfee têm apontado, “esta revolução pode aumentar significativamente a desigualdade social, particularmente com seu potencial de alterar toda a lógica conhecida do mercado de trabalho. O processo de automação tende a substituir cargos de trabalho em diversas áreas da economia, e esta rede de desempregados pode agravar o gap entre o retorno de investimento em capital  e o retorno de investimento em trabalhadores”.

Nesse artigo do The Guardian: “4th Industrial Revolution brings promise and peril for humanity”(A 4ª revolução industrial traz promessas e perigos para a humanidade, em tradução livre), o Prof. Scwab compara “Detroit em 1990 com Vale do Silício em 2014. Em 1990, as três maiores empresas em Detroit tinham um capital de mercado de $36bn, receita de $250bn e 1.2 milhões empregados. Em 2014, as três maiores empresas no Vale do Silício tinham um capital de mercado significantemente mais alto ($1.09tn) gerando aproximadamente a mesma receita ($247bn) mas com cerca de 10 vezes menos empregados (137.000).

É mais fácil ganhar dinheiro hoje com menos empregados do que foi a um quarto de século atrás. Criar e manter uma empresa de carro era um negócio caro e requeria muitos trabalhadores. Uma empresa que ganha dinheiro com aplicativos para smartphones requer menos capital, não tem que pagar por depósitos ou transporte da maneira que empresas de carros teriam e não tem aumentos significativos nos custos conforme o número de usuários aumenta. No jargão de economia, os custos marginais por unidade de rendimento tendem à zero e o retorno é muito alto. Isto explica porque empreendedores digitais podem se tornar muito ricos em pouco tempo”.

As características que empurrarão estes cargos de alta-produtividade, intelectuais e especializados são:

  • Interoperabilidade: redes que conectam, trabalham e comunicam  através da Internet das Coisas e da Internet dos Serviços.
  • Descentralização: a habilidade de fazer decisões inteligentes por conta própria.
  • Capacidade em Tempo Real: a capacidade de coletar e analisar dados e fornecer as inferências imediatamente à rede inteira.
  • Modularidade: adaptação flexível desta sistema em rede à mudança de requisitos, substituindo ou expandindo modules individuais.

Você pode se perguntar “Para quem nós vamos trabalhar? Robôs, plataformas, ou ninguém?”

O CREPÚSCULO DA CLASSE MÉDIA?

Estas transformações estão começando a afetar países desenvolvidos e afetará ainda mais, em uma velocidade exponencial nos próximos 10 anos. Porém, o que acontecerá com regiões subdesenvolvidas como América Latina, África e uma grande parte da Ásia? Este é um dos maiores desafios socioeconômicos que a economia mundial enfrentará. Levando em consideração que a educação para o trabalho em tais países não segue o ritmo de mudança em que as tecnologias estão se desenvolvendo. Isso provavelmente nos levará a um cenário de crise com um alto número de desempregados e um abismo no gap de inequalidade econômica. Essas tendências trarão um mercado de trabalho segregado em “baixa-habilidade/baixa-remuneração” e “alta-habilidade/alta-remuneração”, o que provocará uma grande tensão social.

Como mostrado em estudo de 2013 da “Harvard Business Review” sobre salários e produtividade nos Estados Unidos: “trabalhadores pelo espectro de renda, não incluindo esses que ficam nos níveis mais altos, tem estagnado em seus salário por um tempo. Exceto um breve aumento durante a era dot-com, a média salarial dos trabalhadores se encontra em declínio desde o começo dos anos 70.”

O problema com a desigualdade de renda é provocado por uma lógica do mercado simples e observável: quanto mais capital se tem, mais tecnologia se pode adquirir, quanto mais tecnologia se tem, maior a produtividade e, por consequência, maior o lucro gerado. O que se torna um ciclo vicioso terrível.

CEO-E-TRABALHADOR – TAXA DE SALÁRIO

A respeito de desigualdade de renda, citando Peter Drucker, um rapaz que construiu a maioria do conhecimento que nós aplicamos em administração de negócios: “a proporção do salário de um CEO ao salário de um trabalhador médio deve ser de no máximo 25 para 1, e uma disparidade maior nessa proporção leva a ressentimento por parte do empregado e uma queda em sua moral, afetando negativamente a performance da empresa como um todo. No mesmo artigo da Harvard Business School “Paying Up for Fair Pay: Consumers Prefer Firms with Lower CEO-to-Worker Pay Ratios,”(Ganhando mais com um pagamento justo: Consumidores preferem firmas com menor proporção de salário CEO-e-Trabalhador, em tradução livre), “uma investigação recente feita pelo New York Times estima que a proporção total de CEOs ao salário médio do empregado em uma empresa pública foi tão alta quanto 2.238 para 1 em 2014, sem o conhecimento dos investidores (Morgensen, 2015). Essas proporções são de interesse direto dos investidores e empregadores, nossa parte é explorar os efeitos que essas proporções causam num contexto diferente: a relação entre firmas e clientes, mas também consumidores.” Na realidade, um “experimento real” oferece as evidências iniciais que essas taxas e proporções são de interesse não só dos investidores e empregados, mas também dos consumidores”.

Atenção aos salários deve ser um tema importante neste nova economia que se propõe a ser mais justa. Recentemente em Israel, por exemplo, o pagamento de um CEO,  foi amarrado aos pagamentos de seus empregadores: como explicado neste artigo do jornal britânico The Guardian: “Israel has introduced one of the world’s toughest restrain on bank executives~salries in an effort to narrow a big pay gap betweene bosses and workers.” (“Israel introduz uma das maiores restrições no mundo ao salário de executivos de banco, num esforço para reduzir a disparidade entre o pagamento dos patrões e dos empregados”, em tradução livre).

TECNOLOGIA

No final, nem tecnologia nem a ruptura  que vem com ela são forças mágicas sob as quais os seres humanos não têm controle. Todos nós somos responsáveis por apontar o rumo desse movimento. Responsabilidade presente nas decisões que fazemos cotidianamente, pois somos agentes econômicos enquanto cidadãos, consumidores, produzidores, investidores, educadores e empreendedores. Sim, pessoas podem usar negócios como uma força do bem, como é dito no lema do Movimento Global de Empresas B, temos o potencial de fazer esta quarta revolução industrial trabalhar para nós e não contra nós.

Esko Kilpi, palestrante do Ouisharefest aponta:

“Trabalho onde os seres humanos costumavam ver como uma função, é hoje uma tarefa, mas vai vir a ser uma relação: Trabalho é a interação interdependente entre as pessoas. A ideia central que 2016 traz é a reconfiguração do mercado de uma maneira que traga o foco para as relações. O desafio é enxergar ações a serem feitas dentro dessas relações”.

Leia esse artigo no idioma original (inglês) no Ouishare Magazine.

Tomás de LaraTomás de Lara é Embaixador Sistema B e Link Social Good Brasil. Empreendedor social e netweaver por vocação, co-fundador da Engage, Goma e Global Shapers RJ.


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