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11
fev

Promovendo Inovação em todos os lugares

Por: Bibiana Beck

*Por Shruthi Baskaran & Khanian Mehta

A visão de jovens que atuam em ambientes caracterizados pela oferta limitada de recursos sugere que compreender o contexto socioeconômico é um fator importante para promover inovação.

HippoRoller

 Com um sorriso iluminado, um jovem metalúrgico de Nairobi nos contou que já era inovador o fato de estarmos conversando com ele, perguntando seu ponto de vista. “Comunicação entre diferentes culturas é percebida como algo óbvio, mas pessoas de outras raças nunca conversam comigo!” disse ele.

O jovem foi um dos 270 com idades entre 18 e 26 anos que participaram em nosso recente estudo, “The Global Jugaad Commons” (GJC), conduzido em 2011 para compreender melhor como a juventude em quatro países – Quênia, Tanzânia, Índia e Nicarágua – vê “inovação”. O projeto também teve por objetivo celebrar empreendedores vindos da base e, o mais importante, promover a polinização cruzada de conceitos e ideias e começar um diálogo sobre estratégias práticas e escaláveis para envolver a juventude no desenvolvimento autodeterminado. (Jugaad é um termo coloquial da língua Hindi que captura o espírito da inovação realizada com recursos limitados).

Diversas regiões em desenvolvimento no mundo estão passando pela experiência de contar com uma população jovem crescente. Mas é uma juventude que está em ambientes com recursos limitados, frequentemente enfrenta altos índices de desemprego, uma rotina diária de lutas e a falta de acesso a oportunidades que precisam para realizar todo seu potencial. Apesar disso, acreditamos que essa juventude, se for exposta desde a tenra idade a atividades empreendedoras, representa um enorme recurso para crescimento e pode ter consigo a chave para alcançar dois objetivos que devem andar lado a lado: o desenvolvimento econômico e a redução da pobreza. As narrativas que coletamos falaram das características complexas das inovações realizadas a partir da falta de recursos, e colocam luz sobre a dinâmica de interdependência entre inovação, cultura e contexto.

Três temas principais surgiram durante nosso estudo. Compartilhamos eles aqui porque como o jovem metalúrgico observou, a ideia de aprender mais sobre os fatores que guiam a inovação parecia, para ele, inovadora por si só. Se mais financiadores, inovadores e empreendedores buscassem realizar estudos como esse para compreender os pontos de vista da juventude, poderiam melhor adaptar soluções inovadoras para o contexto cultural e das comunidades, bem como formular programas e estratégias efetivas para facilitar e manter o crescimento orgânico nestas comunidades.

1. Diferentes modos de pensar levam a inovações similares

Estávamos na Tanzania quando ouvimos pela primeira vez as pessoas mencionarem “medicina tradicional” como uma inovação. ‘Injoro’ é um medicamento que cura dores de estômago; ‘ookokai’ alivia dores musculares. Gengibre é administrado à mulheres em trabalho de parto para induzir o nascimento ao provocar espirros! Na medida em que conversamos com respondentes que citaram essas inovações, observamos um profundo senso de orgulho proveniente de uma identidade comum.

Na região próxima da fronteira, no Quênia, respondentes também citaram a medicina tradicional como uma inovação. Esses entrevistados, diferente dos participantes do estudo na Tanzânia, frequentemente associaram a inovação da medicina tradicional com benefícios econômicos – a habilidade de economizar ao evitar a cara medicina “ocidental”. E na Índia, um respondente chamou a atenção para o fato de que as inovações em medicina  surgiram porque o atendimento convencional de saúde estava fora do alcance do “homem comum”. No total, entre 270 narrativas, identificamos oito linhas de pensamento explicando porque certos produtos ou ideias eram consideradas como inovadoras:

1. Subsistência: Alguma coisa que ajuda ganhar ou economizar dinheiro, ou reutilizar recursos para produzir valor em dinheiro.
2. Conveniência e qualidade de vida: Alguma coisa que poupa tempo, torna o trabalho mais simples ou melhora acesso a recursos.
3. Desenvolvimento Social: Alguma coisa que preserva ou mantém a cultura e melhora o comunidade.
4. Entretenimento: Um produto, evento ou atividade que provê divertimento e lazer.
5. Avanço do Conhecimento: Um meio de receber mais informações ou conhecimentos em um assunto, não necessariamente relevante para relevante de vida cotidiana ou contexto.
6. Preservação do Meio Ambiente: Um produto ou atividade que previne a degradação do meio ambiente ou melhore suas condições.
7. Estéticas: Um produto ou design únicos, que melhora o apelo estético.
8. Auto-Realização: Uma atividade que leva a uma maior sensação de satisfação e completude.

Quase 80% dos respondentes consideraram inovação como a capacidade de melhoria das condições de subsistência (capacidade de ajudar alguém a ganhar ou guardar dinheiro), ou um aumento das conveniências ou qualidade de vida (capacidade de economizar tempo, simplificar trabalho ou acessar recursos). Mas enquanto participantes na Tanzânia relacionaram a inovação a coisas abstratas como solução de problemas ou identidade comunitária, os participantes do Quênia e Índia detalharam esses argumentos em explicações mais específicas de como cada inovação diretamente aumenta renda e acesso a recursos.

Compreender os fatores individuais que levam a inovação com recursos limitados pode ajudar os empreendedores a ganhar o almejado ‘buy-in’ das comunidades, mas em uma escala maior, as avaliações sistemáticas da origem das inovações podem ajudar a informar o design do programa-alvo para promover o desenvolvimento autodeterminado em cada comunidade.

2. A necessidade é realmente a mãe da invenção

Quando solicitados a falar sobre inovações que os impressionaram, os participantes estudados mencionaram uma grande variedade de produtos, sistemas e ideias que variam entre soluções tecnológicas de vanguarda até inovações baseadas em conhecimentos tradicionais. Por exemplo, respondentes em Nairobi falaram sobre o conceito de veículos da BMW, enquanto respondentes da zona rural de Nyeri falaram sobre fogões feitos com cerâmica ‘jiko’, que eliminaram os efeitos colaterais adversos de cozinhar ao ar livre.

Enquanto a maioria das pessoas ainda associa inovação com tecnologia, o conhecimento tradicional também tem contribuído para o desenvolvimento de soluções práticas para problemas locais prementes, relacionados à escassez de recursos. Então demos um passo atrás para refletir sobre inovações surgidas a partir de conhecimentos e necessidades locais. Nos perguntamos: Quando foi a última vez que construímos um filtro ao invés de comprar água engarrafada? Ou reutilizamos materiais não recicláveis na forma de acessórios? Os respondentes do Quênia e da Tanzânia usavam carvão em filtros feitos em casa para deixar a água própria para o consumo; alguns até usavam peças de metal e ossos de animais para a confecção de belas joias, reduzindo nesse processo a quantidade de resíduos lançados nos aterros sanitários. Essas soluções locais nos mostraram que o espírito inovador não precisam que ser ensinado ou nutrido através de estruturas formais. Também nos levaram a querer saber se em países com tecnologias mais avançadas há a tendência a usar abordagens relativamente ineficientes para resolver problemas em comparação com as soluções originadas nas bases, em comunidades com recursos limitados.

Adotar um ponto de vista mais próximo das realidades vividas pelas populações nas bases serve a entender a interdependência entre a cultura da comunidade e os sistemas de inovação. Isso pode ajudar os empreendedores a fazer uso do rico conhecimento local para resolver problemas que tenham maior aceitação pela comunidade.

3. Contexto socioeconômico afeta como as pessoas percebem inovação

Respondentes indianos disseram que não consideram como inovação de verdade os produtos tecnológicos como smartphones, já que grandes corporações os desenvolveram com fins de lucro. Eles então distinguem as ofertas dessas corporações das inovações apresentadas por indivíduos ou pela comunidade e oriundas de uma necessidade.

Na zona rural da Nicarágua verifica-se um forte contraste em relação a percepção dos Indianos. Os respondentes se mostraram relutantes em chamar de inovação as coisas desenvolvidas por eles próprios. Para eles, suas ideias não eram inovadoras, mas sim uma “forma de viver”.

Já no Quênia, uma participante que criava joias a partir de casca de coco disse que sua ideia era inovadora porque era vendida no Nakumatt (uma cadeia de lojas de departamento no Quênia). Mencionou que a crescente classe média no país gosta de frequentar o Nakumatt porque isso demonstra sua capacidade de comprar em uma grande cadeia de lojas de departamento ao invés de adquirir produtos em lojas locais. Vender no Nakumatt, complementa a respondente, melhora seus status social. Vários respondentes do Quênia e da Tanzânia atribuem a gênese da inovação aos fatores culturais e do contexto em torno do inovador, mas enfatizaram que mesmo inovações de indivíduos (como joias, por exemplo) servem em conjunto a um grupo maior, já que apontam para a existência de oportunidades de desenvolvimento dentro da própria comunidade.

Curiosamente, respondentes de diversas localidades (particularmente do Leste da África) falaram sobre inovações que surgem da sabedoria intergeracional (por exemplo, a construção de galinheiros com tramas feitas com grama, ou o tratamento de machucados comuns com açafrão) com orgulho. Entretanto, quando solicitados a dar detalhes, muito frequentemente recusavam com educação, argumentando que preferiam proteger o que consideravam informação confidencial e destinada somente à família, com receio de que os “empreendedores ocidentais” monetizariam sua ideia sem o devido respeito pela cultura de onde ela surgiu.

O número de narrativas muito diferentes que escutamos demonstra a diversidade de experiências humanas e a miríade de fatores que influenciam nossos destinos coletivos. Tanto para empreendedores como para as agências de desenvolvimento, compreender essas diferenças em como as pessoas percebem uma inovação é um crítico primeiro passo para desenvolver soluções práticas para lidar com as necessidades reais dessas comunidades. Essa compreensão pode também ajudar empreendedores locais a comercializar suas inovações e eventualmente ampliar sua busca por melhorias autodeterminadas e evolução nas estruturas de vida, de condições de subsistência e de cultura.

Conceitos de Polinização Cruzada Entre Culturas

Neste mundo interconectado globalmente, inovações profundas são tão propícias a surgir a partir das ruas da periferia de Bamako, dos bazares de Bombaim, dos bairros de Brasília, ou dos porões de Boston, como dos centros de pesquisa de grandes corporações. Mas as capacidades de aprendizado das comunidades caracterizadas pela limitação de recursos estão com frequência intimamente conectadas com a cultura e contexto que definem seu modo de viver.

Compreender essas conexões – aprendendo mais sobre as circunstâncias em que os indivíduos inovam e reconhecendo como a limitação de recursos pode levar a sistemas de inovação inerentemente pessoais e mesmo assim fantásticos – é importante. Essas narrativas oferecem um forte argumento em favor do desenvolvimento de um ecossistema de inovação que inclui diversidade epistemológica. Essa diversidade de conhecimento é um importante ingrediente – e a única vantagem competitiva sustentável – no desenvolvimento de sistemas de inovação vibrantes que promovem abordagens sustentáveis e escaláveis para lidar com desafios locais e globais.

Esse artigo foi traduzido e publicado com a permissão da Stanford Social Innovation Review.

Leia esse artigo no idioma original em inglês no link.

Saiba mais sobre a Stanford Social Innovation Review em www.ssireview.org

Shruthi_BaskaranShruti Baskaran (@shruthibaskaran) é estudante do primeiro ano do MBA da Stanford Graduate School of Business (GSB). Antes da GSB, foi consultora do Boston Consulting Group (BCG) e assistente especial do diretor da gerência de inovação e mudança do Programa Mundial de Alimentos das Nações Unidas (WFP). Shruthi possui graduação em Engenharia Civil e Ambiental pela Penn State, e liderou equipes de estudantes desenvolvendo soluções tecnológicas sustentáveis e de baixo custo para lidar com questões de segurança alimentar no Leste da África.

 

Khanjan_Mehta

Khanian Mehta é fundador e diretor do programa Humanitarian Engineering and Social Entrepreneurship (HESE) da Penn State, onde também é professor assistente de design de engenharia. Liderou empreendimentos sociais baseados em tecnologia no Quênia, Tanzânia, Índia, Serra Leoa e outros países, incluindo sistemas de telemedicina e de redes sociais baseadas em telefonia móvel. O mais recente projeto de Mehta é um livro, Solving Problems that Matter (and GettingPaid for It), que mergulha em carreiras ligadas a Ciência, Tecnologia, Engenharia e Matemática aplicadas à inovação social e no desenvolvimento sustentável.

 


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