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29
nov

6 perguntas sobre acessibilidade para Michele Frasson

Por: Cintya

A Michelle Frasson é analista de qualidade dados na Neoway e deficiente visual. Também já trabalhou como testadora na Softplan com usabilidade e acessibilidade web em plataformas móveis, e é instrutora no JS4Girls, um curso de programação em Java exclusivo para mulheres. Ela arrasa MUITO, e por isso a chamamos para participar do Festival no painel Tecnologia para todos? A importância da inclusão de pessoas com deficiência, ao lado da Beatriz Lonskis e do Fernando Botelho.

#PraCegoVer: Uma mulher jovem (Michelle), com um vestido listrado, está em pé em cima de um palco, segurando um microfone e falando. Ao lado direito da foto, um homem sentado (Fernando), observa ela falar. Foto: Fernando Wiladino

Nós recebemos muitas perguntas durante o painel. Como os convidados não tiveram tempo de respondê-las todas durante o Festival, a Michelle topou responder agora para deixar todo mundo um pouco mais esperto quando o assunto é acessibilidade online e offline:

1- O quanto é importante o uso da #PraCegoVer com a descrição da publicação para os usuários cegos das redes sociais? – Luísa, Florianópolis

Nossa, muito! Experimente navegar em alguma rede social sem ver as fotos… Você não vai entender grande parte do que acontece lá, e é mais ou menos assim que funciona quando não tem #PraCegoVer. Aí, o cego fica sem ver realmente! Sei que dá trabalho colocar #PraCegoVer, às vezes até esquecemos de colocar, eu mesma esqueço de colocar. Mas, é preciso e necessário para que um público enorme faça parte das redes sociais também, compreenda os fatos engraçados, aquela foto legal que você tirou, e acima de tudo isso, para que as redes sociais sejam para todos, e de todos e não só de pessoas que enxergam a fotinho. Já perdi até eventos por isso, o convite estava dentro de uma imagem que não tinha a #PraCegoVer, eu só fiquei sabendo depois por um grupo de amigos.

Será que convenci mais alguém a utilizar #PraCegoVer?

Nosso "anjo" dos painelistas, Caetano, segura a mão da Michelle antes de ela subir ao palco. #PraCegoVer: Um homem é fotografado de lado, em primeiro plano, segurando a mão esquerda de uma mulher (Michelle), enquanto ela sobe as escadas que levam até o palco. Foto: Ana Paula Santos/Save the Love

2- Quais são os principais erros de sites na acessibilidade aos deficientes e como pensar em soluções simples?

Acho que se eu for listar todos, vai faltar espaço! Mas, de forma geral, são imagens sem descrições claras, ou sem descrição realmente, campos de datas impossíveis de digitar uma data por má configuração, botões sem textos claros, ou sem texto nenhum não identificando do que se trata o mesmo. Falta de conteúdo em LIBRAS (Língua Brasileira de Sinais), falta de legenda em vídeos, falta de áudio descrição em vídeos, sites de compras com tempo de navegação muito curto, textos sem clareza, e por aí vai…

A solução simples para isso tudo, é testar o site, simulando um usuário real, e todas as possíveis dificuldades que ele pode encontrar. Só assim vai se ter melhor entendimento.  Para começo, simule um usuário: veja um vídeo só com as caixas de som e o monitor desligado, depois, veja só com o monitor ligado sem som. Faça compras em um site onde você tem tempo para finalizar sua compra, erre seu CPF, apague, digite novamente, e quando você estiver quase terminando, a sua seção (o tempo de permanência na página) acaba, e você vai ter que fazer o procedimento novamente. Utilize o leitor de telas para navegar no site, e veja se está realmente lendo tudo. Tente comprar uma passagem aérea por exemplo com leitor de telas.

Há muitas soluções técnicas, mas mesmo sabendo de todas, ainda não é garantido. É preciso saber realmente o que o usuário vive na prática, vai ficar muito mais fácil!

3- Está muito comum chamar de “todxs” ao invés de todos ou todas. Porém, essa troca de gênero pelo X causa problemas nos leitores para cego. Quais outras situações simples do cotidiano que causam dificuldades? – Luciano, Florianópolis

Também é muito pessoal. Eu, particularmente não vejo problema em escrever: “VC, TB, TDB, TODXS, …” e por aí vai, o leitor lê. O que tá valendo é compreender o que tá escrito, acho que nessa situação é conveniente perguntar para a pessoa: “Te incomoda eu escrever dessa forma?” A resposta vai ser precisa.

As coisas que causam dificuldades, são: o envio de fotos com textos escritos na foto sem descrição, o famoso gif que não dá para entender nada. Mas, como falei, é muito particular. No meu caso quando recebo algo assim, às vezes eu pergunto, às vezes não, depende do dia.

4- Como a inovação pode permear o sistema de educação brasileiro nas universidades? Quanto mais inclusivo, mais inovação? – Leonardo Baldissera, Florianópolis

Iniciando a resposta pela segunda pergunta, na verdade (hehe). Deveria ser exatamente assim: quanto mais inclusivo, mais inovação. Só que o que temos hoje na prática é: quanto mais inovação, menos inclusivo, ou ainda, nenhuma inovação e nem um pouco inclusivo. Hoje há muitas faculdades a distância que estão cheias de inovação, tem uns conteúdos muito legais, como aulas com games, por exemplo. Porém, totalmente inacessíveis para uma pessoa com deficiência (e não somente cega, aqui incluo todas as pessoas).

A Michelle com sua amiga e a tradutora do Festival. #PraCegoVer: Três mulheres se abraçam e sorriem. Uma dels usa um fone de ouvidos com microfone, e outra óculos.

Um simples pedido de tempo adicional para fazer prova, por exemplo, poderia ser pedido pelo próprio sistema. Ou, ainda, sabendo que o aluno da matrícula X é pessoa com deficiência, já deveria ter a opção (de pedir tempo adicional). Isso foi um exemplo muito simples, que nem tem muito a ver com extravagâncias tecnológicas, e hoje não temos.

Agora, respondendo a primeira, na verdade, acho que inovação não tem nada a ver com ser inclusivo, porque inovar não é fazer algo inclusivo, inovar é fazer algo novo, diferente, e inclusão não deve ser nem novo, muito menos diferente, deve ser algo normal. Acho que inovação é você construir algo para seu sistema educacional moderno, diferente, como falei que já há, mas, de forma alguma atribuir inovação do sistema de educação brasileiro nas universidades com inclusão e acessibilidade digital.

5- No seu entendimento, em quais aspectos as empresas ainda podem melhorar para se tornarem ambientes mais inclusivos? – Cássia, de Florianópolis.

Cada um tem a sua especificidade… Na verdade, posso até falar no meu entendimento, mas não vai ser algo pleno. Cada pessoa é única. Conheço cegos que precisam de piso guia (aquelas barras que ficam no chão, de cor bem chamativa), já eu por exemplo, nem ligo se tem ou não. Quando comecei a trabalhar, o elevador não falava o andar, e ainda assim eu nunca errei meu andar do prédio! Então fica muito complicado falar em aspectos físicos. Atitudinal é pior ainda, pois é muito complicado entender o ser humano. Só convivendo, perguntando para saber. E no aspecto profissional, no sentido de contratação, a única coisa que dá para falar com clareza é que as empresas precisam ver a pessoa com deficiência como um funcionário qualquer, e não como uma pessoa com deficiência. Não limite, deixe a pessoa mostrar até onde ela pode seguir. Até porque a limitação quem dá é a própria pessoa com deficiência para ela mesma.

6- Como produtores de entretenimento podem melhorar sua acessibilidade? No caso da deficiência visual, o exemplo de filmes e vídeos e no caso auditivo, shows e  músicas. – Gabriel, Florianópolis

Filmes e vídeos basta áudio descrição para cegos, e legendas para deficientes auditivos. No caso de shows para cegos, também pode colocar áudio descrição, e para deficientes auditivos pode colocar LIBRAS (Língua Brasileira de Sinais). No caso de músicas, se for um clipe pode colocar áudio descrição para cegos e legendas para surdos. Agora, se for uma música mesmo, apenas áudio, eu sinceramente não sei responder como fica no caso dos deficientes auditivos, vou procurar saber para responder em uma próxima!

 

Legendas das fotos:

1- #PraCegoVer: Uma mulher jovem (Michelle), com um vestido listrado, está em pé em cima de um palco, segurando um microfone e falando. Ao lado direito da foto, um homem  sentado (Fernando), observa ela falar.

2- #PraCegoVer: Um homem é fotografado de lado, em primeiro plano, segurando a mão esquerda de uma mulher (Michelle), enquanto ela sobe as escadas que levam até o palco.

3- #PraCegoVer: Duas mulheres sorriem e abraçam uma terceira mulher,  também sorridente, que está sentada. A que está à esquerda da foto usa fones de ouvido, e a da esquerda usa óculos.

Assista aqui o Festival SGB 2017 completo


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