Hackhatons: espaço para que organizações enxerguem dados que podem impulsionar negócios ou projetos sociais. Ou vice-versa.

Quando recebemos o convite para participar de um Hackhaton de Dados de alguma organização do setor privado, confesso que fico extremamente feliz e ansiosa de fazer parte. Explico-me: como diretora executiva do Social Good Brasil, obviamente, há a certeza que os dados gerados nas organizações podem ser um tesouro para gerar impacto social, se bem utilizados. Também carrego em minhas credenciais a passagem por empresas que possuem diversos modelos de negócio e de interação com o pilar social do negócio – de uma Natura e seu modelo tripple bottom line* a outras companhias em que o social é vivido pela filantropia e programas de Responsabilidade Social. E seja qual for o modelo de negócio da organização, sim, há sempre a oportunidade de ter dados ou gerá-los.

Vamos lá. Alguém já parou para pensar em quantas organizações utilizam apps como interface com o seu consumidor ou público-alvo? Tomando o exemplo da Natura e sua operação em escala: são 1.500.000 consultoras de beleza que chegam a lugares em que nem os Correios brasileiros chegam literalmente. E se você considerar que boa parte tem o aplicativo Minha Natura em seus gadgets. Bingo! Que oceano de dados existe a partir dessa interação que revelam perfis, recortes socioeconômicos e oportunidades de atuação ou intervenção junto a comunidades que poderiam receber o benefício, por exemplo, da inserção na cadeia produtiva e arranjos econômicos locais. Para permear essa conversa com dados – segundo estudo do IDC Seagate de 2018, em 2015, um cidadão comum com seu celular à mão, interagiu 218 vezes por dia com plataformas receptoras de dados e, em 2025, serão 4.785!


Dados são para todas as organizações

Mas, se você a este ponto acredita que apenas organizações que tenham o pilar social integrado às suas decisões estratégicas ou que tenham algum grau de digitalização em suas plataformas de interação, conseguem se dar ao luxo de usar esse petróleo em forma de números, engana-se. 

Quantas informações e dados passam todos os dias em setores de logística, vendas e operacionais, que poderiam subsidiar outras ONGs e projetos sociais que necessitam ter assertividade em suas ações em um cenário de escassez de recursos? 

Aqui, provocamos todos a pensar sobre Filantropia de Dados – quão mais valoroso seria a doação dessas informações a órgãos públicos, por exemplo, do que recursos financeiros sem investimento orientado para chegar a quem realmente precisa? Indo a um exemplo prático: o quanto informações geradas em setores da Logística de organizações não poderiam apoiar a gestão municipal a entender como melhorar a mobilidade das cidades, a coleta de lixo ou a atuar de forma preditiva durante a época das chuvas? Obviamente, isso exige uma governança e políticas internas para que a organização consiga tratar os dados e, claro, um esforço das demais entidades para fazer bom uso desse recurso. Mas, não gostaria de deixar de provocar que existem possibilidades infindáveis de atuação na iniciativa privada no ambiente da sua organização para instituir programas de impacto inovadores e escaláveis a partir da doação de seus dados internos, se estes direcionados a organizações com capacidade de utilizá-los.


Sobre hackhatons e processos criativos 

 A premissa da organização para o hackhaton é lógica: juntar representantes de diversos setores da companhia, em um esforço direcionado e em prazo crítico para que saiam com ideias que resolvam um determinado desafio. Sob pressão e orientados por um processo de Design Thinking, por exemplo, os participantes vão passando de hipóteses, a ideação até chegar a protótipos. Os grupos são instados a apresentar suas ideias, propostas e protótipos a uma banca de avaliadores em pitches de 1 até 10 minutos, na maioria dos casos. 

Aqui, não há nenhuma novidade para quem atua ou interage com os ambientes de inovação e tecnologia. O que gostaria de convidar as organizações é para pensar sobre o quanto dados do negócio não podem gerar soluções ou repivotar projetos, inclusive. Quantas áreas das organizações não interagem e não possuem a cultura de compartilhamento?

E, como minha função aqui é provocar o pensar sobre o social, aqui vão alguns caminhos possíveis para o processo não negligenciar todo o potencial de chegar a soluções que tragam possibilidades positivas. Por que não debater sobre ODS (Objetivos de Desenvolvimento Sustentável da ONU)? A tabelinha simples e disponível em uma simples busca no Google sistematiza pilares do que se coloca como crucial para atingirmos um mundo mais sustentável. Por que não mentorar os grupos para que reflitam sobre a importância dos dados levantados para alguma iniciativa da organização de Responsabilidade Social? 

Sendo o pilar social protagonista ou não, os processos criativos calcados em dados e com um olhar para o impacto social podem resultar, inclusive, em soluções que impactam resultados financeiros.

Já se parou para avaliar oportunidades que surgem de negócios quando há o encerramento das atividades de uma grande fábrica de veículos, por exemplo? Se considerar que teremos uma comunidade de entorno afetada, o quanto negócios que apoiam a geração ou complemento de renda, como a venda porta a porta, os aplicativos de mobilidade e de concierge poderiam enxergar oportunidades. Ou melhor ainda, o quanto uma instituição financeira a que a saúde financeira de seus clientes não poderia adotar algum plano emergencial? Uma prova tácita de como as organizações, ao adotar o olhar para os dados incluindo a dimensão social, ganham valor em inovação, em seu negócio. 

Organizações de qualquer porte podem – e devem – justificar sua existência em um mundo cada vez mais digital e complexo, buscando propósito e caminhos sustentáveis. O SGB é engajado em mostrar que, num cenário em que qualquer um com whatsapp consegue transitar milhares de dados todos os dias, essas organizações podem, ao aplicar o olhar social e orientado para dados, alcançar uma fonte de riqueza inestimável que alimente o ambiente interno em prol de decisões para o bem, como também um petróleo em termos do que pode ser doado para outras entidades que usem esse combustível e alimento para direcionar seus recursos. E, sim, aceitamos convites para mentorar organizações sobre como fazer isso.

*Essa expressão em inglês significa que as decisões da companhia são tomadas com base no tripé sócio-financeiro-ambiental. (Perdão pelo neologismo!).

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