Não existe Literacia em Dados sem Literacia Visual

Oi, pessoal. Tudo certo? Meu nome é Leandro Amorim e eu trabalho com design, dados, informação e visualização praticamente todos os dias dos últimos 5 anos. Foram tantos projetos que desenvolvemos nesse tempo que talvez vocês tenham visto alguma coisa por aí.

Como é o meu artigo inaugural no Radar, acho bacana uma apresentação um pouco mais detalhada. Sou designer e diretor de criação da Café.art.br, um estúdio de design de informação que ajuda governos, think tanks, universidades e empresas a transformarem seus dados em histórias e informações úteis.

Desde 2018, sou diretor da Associação dos Designers Gráficos do Brasil, a ADG, onde promovo a ideia de que design e dados devem andar de mãos dadas, estimulando designers a perderem o medo das planilhas. Se você é designer, dá um pulo lá no www.adg.org.br 🙂

Também sou, junto com a Júlia Giannella, criador e curador do DatavizRio, um encontro mensal e gratuito que realizamos desde janeiro de 2019. Nele, nós falamos sobre o papel do design na visualização de dados, trazemos convidados do Rio e de fora para falar dos seus projetos e estimulamos a troca na comunidade que vem se formando. Em setembro, tivemos nossa 9ª edição e já estamos ansiosos para a 10ª!

Por fim, muito por conta da movimentação do DatavizRio, estou me tornando um educador nas áreas de visualização de dados e literacia visual. Talvez o maior desafio do ano!

Fiquei muito feliz com o convite do pessoal da Social Good (muito obrigado Tiago Manke, Bruno Evangelista e Karoline Muniz) pra escrever pro Radar e, mais ainda, por poder falar de assuntos que não só me interessam muito, mas que também considero fundamentais para os dias de hoje: design, dados, design da informação, literacia em dados, literacia visual, políticas públicas, educação e, por que não, nosso papel social como produtores e comunicadores de dados e informação.

Literacia em dados e literacia visual

A Café.art.br já foi um estudio full service e isso me deu oportunidades fantásticas: trabalhar com muitas áreas de design e desenvolver diferentes habilidades. Criação de marcas e identidades visuais, design de exposições, sites dos mais diversos, ensaios fotográficos e catálogos de moda, cenografia de palco, vídeos, animações, ilustrações, projetos editoriais, capas de livros e CDs, infográficos, revistas interativas para tablets, design de produto… Até jogo de tabuleiro eu já tive oportunidade de fazer!

Foram anos praticando diariamente, estudando forma, cor, ritmo, grid, hierarquia, composição e interação. Anos criando linguagens visuais e trabalhando a comunicação visual gráfica nos mais diversos contextos, temas e suportes. No entanto, foi só nesses últimos anos, trabalhando com dados, que comecei a pensar mais a respeito de literacia visual.

Hoje, olhando pra trás, é até fácil entender o porquê disso. Voltando no período da faculdade (Desenho Industrial Programação Visual, na Escola de Belas Artes da UFRJ), entendo como minha alfabetização visual se deu de forma lenta e gradual, quase sem que eu percebesse. Em um momento eu não sabia nada e, em outro, assim de repente, passo a entender  como “ler” imagens, como criar linguagens e gramáticas visuais inicialmente de baixa complexidade, mas que se sofisticaram com a prática. Ouso dizer que essa alfabetização foi tão bem feita que eu mal me dei conta que estava, de fato, alfabetizado.

Literacia em Dados

Pula pra alguns poucos anos atrás e começo a trabalhar com dados e, no processo, começo a ouvir falar muito em “literacia em dados”. Data literacy, pra ser mais exato já que boa parte da literatura vem de fora. Aprofundando o estudo, percebo que muitas das habilidades necessárias para se dizer uma pessoa letrada em dados tem bases muito visuais.

Vamos pegar por exemplo a lista das 17 características de pessoas letradas em dados apontadas pelo Ben Jones, do Story by Data (se quiser dar uma olhada, clica aqui que vale a pena). Ele divide em 9 principais características e 8 secundárias, que são consequências do desenvolvimento das 9 principais. Se você analisar, mesmo que superficialmente, vai perceber que das 9 elencadas, 5 dependem de alguma forma do letramento visual.

Por que cargas d’água então estamos falando de literacia em dados e não de literacia visual?! Esse é o designer dentro de mim falando, mas contendo ele um pouco, deixa eu refrasear: por que não estamos falando das duas literacias juntas?

Bom, só posso especular, mas sinto que isso não vale a pena. Essas especulações geralmente tendem a apontar dedos e esse apontamento de dedos acaba dividindo opiniões. Como tudo que eu faço é visando agregar e não separar, deixo a especulação pra quem quiser. 🙂

O fato é que essas duas literacias estão intimamente ligadas. A partir do momento em que criaram a primeira representação visual de dados elas se conectaram e jamais se desconectarão.

Pensem só: quando a gente fala que uma pessoa letrada em dados sabe as regras da visualização de dados, sabe criar gráficos, sabe comunicar dados, sabe fazer uma análise visual, a gente está falando de literacia visual em prática!

Definindo Literacia Visual

Pra continuarmos a conversa seguem algumas definições mais precisas de literacia visual:

Traduzido livremente da Wikipedia: “Literacia visual é a habilidade de se interpretar, avaliar, e dar significado a informação apresentada em forma de imagem.”

Definição por John Debes, que, até onde sei, cunhou o termo em 1969: “A literacia visual refere-se a um grupo de competências de visão que um ser humano pode desenvolver ao ver e ao mesmo tempo ter e integrar outras experiências sensoriais. […] Quando desenvolvidas, permitem que uma pessoa visualmente alfabetizada discrimine e interprete as ações visíveis, objetos, símbolos, naturais ou artificiais que encontra em seu ambiente. […] Através do uso apreciativo dessas competências, ele é capaz de compreender e apreciar as obras-primas da comunicação visual.”

Trocando em miúdos: literacia visual é baseada na ideia de que imagens podem ser lidas e que significado pode ser extraído por meio dessa leitura. Mas qualquer imagem? Cinema? Fotografia? Pintura? 

Claro! Essa área é mesmo super abrangente e fala de imagens em geral sim: um quadro, uma foto, um filme, etc. Mas a gente tá falando especificamente do contexto da literacia na visualização de dados.

Lembram que eu falei que tento promover que design e dados devem andar de mãos dadas? Então… Os princípios da literacia visual vem dos estudos da cognição e da psicologia e foram colocados em prática por muitos profissionais de diversas áreas (artistas, engenheiros, cartógrafos, estatísticos, arquitetos, etc) ao longo do tempo. Eles foram profundamente estudados, organizados e sintetizados por designers e o meu contato com eles veio, principalmente, pelo estudo da Bauhaus*.

*ALT+TAB

A Bauhaus foi a primeira escola de design do mundo, fundada por Walter Gropius em 12 de Abril de 1919, em Weimar, na Alemanha. Esse ano comemoramos 100 anos de fundação da Bauhaus tem dois sites pra você ver um pouco dessa comemoração. O brasileiro Bauhaus 100 Anos e o alemão 100 years of Bauhaus.

Bauhaus

Gestalt – Bauhaus

Wertheimer, Koffka, Kohler e a psicologia Gestalt.
Fonte: Google Imagens

Princípios da Gestalt

Unidade, Proximidade, Semelhança, Continuidade, Fechamento, Simetria, Segregação e Pregnância.
Fonte: Google Imagens

Percepção visual – Bauhaus

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Ponto e linha ao plano (1936).
Fonte: Monoskop (www.monoskop.org)

Gyorgy Kepes – The New Bauhaus

The language of Vision (1944).
Fonte: Monoskop (www.monoskop.org)

Gramática Visual

É fato que existe toda uma gramática visual que ela é a base da comunicação visual gráfica. Essa gramática é usada para fazer tanto os gráficos mais simples e comuns como os de barra e de pizza, mas também serve de base para criarmos visualizações infinitamente mais complexas. (E isso tem tudo a ver com o uso de dados, certo?)

Primeiro gráfico de barra (W. Playfair, 1786)

Fonte: Wikipedia

Project UKKO (M. Stefaner, 2016).

Fonte: Project Ukko (www.project-ukko.net)

Dêem uma olhada nas imagens a seguir. São trabalhos de algumas pessoas que foram fundamentais para que eu pudesse desenvolver em mim a literacia visual e sei que ou já contribuíram ou irão contribuir para que vocês também a desenvolva. Vou só fazer um corte proposital e focar em trabalhos que foram produzidos até mais ou menos 1980.

Referências pré 1900:

Joseph Priestley – Cronografia (1765)

Fonte: Wikipedia

William Playfair – Primeiro gráfico de linha (1786)

Fonte: Wikipedia

William Playfair – Primeiro gráfico de pizza (1801)

Fonte: Wikipedia

Charles Joseph Minard – Movimento Comercial no Canal do Centro (1844)

Fonte: Wikipedia

John Snow – Ghost Map (1855)

Fonte: Wikipedia

Florence Nightingale – Causes of Mortality (1858)

Fonte: Wikipedia

Charles Joseph Minard – Campanha da Rússia (1869)

Fonte: Wikipedia

Referências de 1900 até 1980:

Harry Beck – Mapa do Metrô de Londres (1933)

Fonte: Wikipedia

Otto Neurath – Isotype (1936)

Fonte: Google Imagens


Jacques Bertin – Semiologia Gráfica (1967)


Fonte: Wikipedia


Bruno Munari – Design as art (1966)


Fonte: Google Imagens


Donis A. Dondis – Sintaxe da Linguagem Visual (1973)

Fonte: Google Imagens


Adrian Frutiger – Type Sign Symbol (1980)

Fonte: Monoskop (www.monoskop.org)


Bom, espero ter deixado pelo menos uma pulga atrás da orelha de boa parte dos leitores. Para se desenvolver por completo a literacia em dados temos que necessariamente passar por todos os aspectos visuais da análise e comunicação dos dados. Por mais rudimentar que seja nossa gramática visual ela está lá, lado a lado com nossos dados. Quem melhor se comunicar visualmente certamente terá um destaque.

Por hora é isso pessoal. Meu muito obrigado a quem chegou até o fim do artigo! Se tiverem algum comentário, dúvida ou sugestão, mandem ver que farei o possível pra responder.

Daqui a pouco tem mais.

Abraço!

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