Futebol e dados: campeões são data driven

No caminho para casa hoje, uma camisa do Flamengo passou por mim vestindo um homem alto, enorme, que partia na direção oposta. Uma outra, logo em seguida, vestia uma mulher baixinha. Percebi que mais do que um uniforme, as camisas que vestem tantos corpos, personalidades e vivências diferentes mostram o quanto o futebol é parte importante da gente. Da gente aqui da Baixada Fluminense, onde eu moro, mas também de todo canto do Brasil, do mundo. Isso fica claro neste lindo e sincero texto publicado por Stick to Sportz, um blog apaixonado pelo jogo.

E por ser tão cotidiano pra muita gente, me arrisco a dizer que é o melhor ponto de partida pra falar daquele termo que começou a ganhar destaque agora, mas que já estava nos gramados faz tempo. Um clube data driven é, numa tradução livre, orientado por dados. São times que tomam decisões de táticas, formações e até contratações olhando quase que unicamente para estatísticas e padrões de jogo. Os números que sempre pulam das telas nos intervalos e fins de jogo mostram que a tendência veio pra ficar.

Quem acompanha o futebol europeu sabe que Liverpool e Manchester City estão entre esses gigantes data driven. Não por coincidência, foram campeões da Premier League em 2019 e 2020, respectivamente. Aqui no Brasil, quem não lembra da festa rubro-negra na Presidente Vargas em 2019? O duplo campeonato do Flamengo, levando Libertadores e Brasileirão, deve muito aos dados.

Para ilustrar como isso acontece, vamos por partes: primeiro, lançando luz sobre como a relação do Liverpool com a data science compensou desvantagens frente a outros gigantes europeus mais ricos em 2019. Depois, atravessamos o Atlântico pra falar de Flamengo – sem clubismo, eu juro!

A vitória de Klopp e Graham

Cem mil nomes, espalhados pelo mundo inteiro, estão na base de dados de Ian Graham; Segundo o The New York Times, são dados de jogadores que, em caso de destaque e “match” com o estilo do Liverpool, podem receber uma proposta para integrar o time. Se você não faz ideia de quem seja Graham, tudo bem. Eu te conto.

O diretor do departamento de inteligência do Liverpool é quem analisa os dados, partida a partida, para entregar alternativas e combinar com Klopp, o técnico do time, como poderiam ter feito diferente aqui ou ali. É ele, também, quem determinou contratações como a do jogador Mohamed Salah, mesmo contra opiniões, porque os dados mostravam que o egípcio tinha potencial para agregar ali. E que manobra de Graham: Salah marcou 32 gols na temporada de 2018, quebrando recordes no campeonato inglês.

Muitos outros jogadores estiveram e estão no radar data driven do clube. Veremos uma Era de um futebol ainda mais preciso e exigente?

Análise de dados, o 12º jogador

Dentro de campo, os dados coletados em tempo real ajudam a decidir as estratégias e são armazenados para serem analisados depois do jogo. Um exemplo visual interessante (olha o storytelling com dados aí) de como isso funciona é esse gráfico ao lado.

A equipe de Data Science do Liverpool explica que o jogador circulado em amarelo tem a posse de bola, e seu time tem o controle (ou seja, podem dominar a bola mais facilmente) das áreas em azul, enquanto as áreas em vermelho estão “na posse” do time adversário. Assim, o melhor passe é para jogadores que estejam em áreas azuis.

a determinar probabilidade de gol (fonte: Liverpool.com)

Esse outro exemplo é ainda mais chique, né? Ele mostra as áreas em que os jogadores do Liverpool, time de vermelho, podem chegar mais rápido que os jogadores em azul. Aquela sigla ali em cima indica a probabilidade de, com a bola nessa posição, um gol ser marcado dentro dos próximos 15 segundos: a chance é de 1.3%.

Ainda há muitos, muuuitos dados por trás das vitórias que impulsionaram o campeonato do Liverpool na Premier. O mundo todo reconheceu o uso brilhante dos dados pelo clube inglês. 

Mas nada substitui a capacidade de Klopp de traduzir tudo isso para a língua do futebol e treinar os jogadores guiados por ela. Sem perder, é claro, a paixão pelo jogo, que agora caminha de mãos dadas com a inovação. A aposta em Jürgen Klopp, que chegou ao Liverpool em 2015, para tirar o time da crise em que estava também foi data driven. Lance quase tão genial quanto os que o próprio Klopp lidera.

Sob o emblemático “We have to change from doubter to believer” do comandante (“Precisamos parar de duvidar e começar a acreditar”, em tradução livre), o Liverpool volta a ser campeão. Entre outros títulos, a Premier League veio após 20 anos de espera! Seria Klopp um líder nato e exímio praticante da narrativa com dados?

Uma temporada de muito “ai, Jesus”

Flamengo não tava bem. Depois de uma fase ruim, sem títulos em 2018, a redenção chegou no ano seguinte. Jorge Jesus – JJ, pros íntimos – chegou ao Flamengo, em junho de 2019, para ficar um ano. E que ano! Na mesma semana, a dobradinha de títulos conquistada sob o comando do técnico português levou uma multidão rubro-negra  em êxtase à Avenida Presidente Vargas, no centro do Rio. Brasileirão e Libertadores seriam os primeiros de 5 (cincum?) títulos do Mister.

Assim como Jesus, outra novidade vinda da Europa faria o clube voar alto. Luiz Felipe Teixeira, então Vice-Presidente de Tecnologia da Informação, anunciou, no final de 2018,  a adoção de uma ferramenta já usada por times como Man City e Bayern de Munique.

Quem previu a festa?

Imagine uma ferramenta capaz de “digitalizar o gerenciamento de performance, coordenar processos de treinamentos, administrativos, financeiros, contabilidade, médicos, de gerenciamento de times e análise de dados em um único ambiente”. É o que faz a Sports One, da empresa de softwares alemã SAP. Esse tanto de funcionalidade reunida aí é a descrição que o Flamengo deu em comunicado oficial, em 2018, quando comprou o recurso. O carioca foi o primeiro time do futebol brasileiro a implementar esse tipo de monitoramento em seu futebol.

A crença de Luiz Felipe Teixeira no investimento era grande, que esperava “que já em 2019 possamos colher resultados em forma de títulos.” Combinado com a contratação de Jorge Jesus, a manobra foi a fórmula do sucesso.

Mas o que faz, na prática, a SAP Sports One?

São 5 pilares que sustentam o funcionamento da Sports One:

#1 Team Management: coordena a administração geral dos perfis das equipes, jogadores, calendários, gestão de talentos e funciona como hub para os demais;

#2 Match Insights: trabalha principalmente usando imagens: o sistema capta a movimentação dos jogadores, traça linhas entre eles, grava o histórico da área percorrida no campo etc;

#3 Challenger Insights: adicionado mais recentemente, consolida características técnicas e táticas dos adversários;

#4 Performance Insights: grava as informações técnicas do desempenho dos jogadores ao longo das partidas, para cuidar do desenvolvimento de seus próprios jogadores;

#5 Player Fitness: cuida de sua parte física, medindo nível de fadiga, tratamentos utilizados e histórico de lesões, e é utilizado pela equipe médica.

O Player Fitness dá um panorama da parte física dos jogadores

A solução usa um conceito que a gente vai ouvir muito daqui pra frente, especialmente com a chegada do 5G: a Internet das Coisas permite conexões entre pessoas e objetos entre si ainda mais rápido do que vemos hoje, com troca de informações simultâneas. Com análises de performance e resultado simultâneas. 

Assim, o corpo dos jogadores envia dados diretamente para o software, como uma extensão, pra que ele realize esses cálculos. Achou muito futurista? Se você tem um relógio inteligente, já faz algo muito semelhante. Ou se registra dados de sono e alimentação em algum app, também.

Todo torcedor é fluente nos dados do time do coração: lê ansiosamente os números ao final de cada jogo, comparando chutes, posse de bola, precisão… Esse novo idioma tá mudando o jeito como a gente se relaciona com quase tudo na nossa vida, dentro e fora dos campos de futebol. Se até a nossa casa tá cada vez mais inteligente e integrada, no esporte, essas inovações têm um poder enorme para dar um show de performance, aprimorá-lo, tornar mais justo. O grito apaixonado, o calor no peito, os “ai, Jesus”, contudo, são à moda antiga.

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